segunda-feira, 28 de julho de 2008

O Fim de Dois Sofrimentos - Gazeta do Povo 27/07/08


Entrevista: Hália Pauliv de Souza, militante da causa da adoçãoPublicado em 27/07/2008 Reportagem: Vinicius Boreki

É lugar-comum afirmar que a relação entre pais e filhos começa durante a gestação. A generalização, no entanto, não enquadra quem opta por adotar uma criança, independentemente do motivo. Para essas pessoas, a gestação tem início justamente no momento em que se decide seguir por esse rumo, que, muitas vezes, é mais do que desconhecido.
No livro Adoção – Exercício da Fertilidade Afetiva (Editora Paulinos, 2008), que será lançado no dia 9 de agosto em Curitiba, a autora Hália Pauliv de Souza – que adotou suas duas filhas e é militante da causa – explica as origens do processo e aborda a preparação necessária para aqueles que desejam adotar uma criança.
Para Hália, é possível para qualquer um se transformar em pai sem necessariamente gerar um filho. “Existe uma gestação intelectual, psicológica e afetiva; de um lado existe uma criança abandonada e, do outro, um casal sem filhos. São dois sofrimentos que terminam em um só instante”, afirma a autora.
Na entrevista, Hália fala sobre o sua obra – um manual prático que mostra os benefícios da adoção, tentando espantar possíveis preconceitos pelo desconhecimento –, a evolução do processo adotivo no Brasil, os procedimentos adequados quando se escolhe trilhar esse caminho e a sua experiência com pais adotivos e crianças dispostos a encontrar um novo lar.
Seu livro é uma espécie de guia sobre adoção. Era o seu objetivo abordar questões sobre adoção de forma tão prática?
Sou por natureza muito prática. As pessoas gostam de informações breves e diretas. Consegui colocar tudo que os pretendentes perguntam no curso em que trabalho há 10 anos como voluntária. Há outros livros que tratam muito bem do tema, mas queria, e acho que consegui, condensar tudo de forma simples e objetiva.
Como alguém que acompanha adoções há 30 anos, houve evolução neste processo?
Felizmente, ocorreu uma grande evolução. O preconceito, que ainda existe, já foi enorme. As mães adotantes até faziam barriga postiça. A mudança aconteceu e, hoje, temos ONGs de adoção por todo país, encontros nacionais para discutirmos, a imprensa falando com menos sensacionalismo e mais conhecimento, o Dia Nacional da Adoção (25 de maio) e a licença-maternidade. Também já se entende que a criança vale mais do que a sua procedência.
Em geral, quais os maiores medos dos pais adotivos?
Os preparados não têm medos. Existem algumas dúvidas quanto ao tempo de permanência na instituição, como contar ao filho sobre a adoção e se quando crescer ele vai querer conhecer os pais consangüíneos. Chamo de consangüíneos no lugar de biológicos, porque todos são filhos biológicos de alguém, mesmo os adotados.
A senhora ministra um curso para pais que desejam adotar crianças. O que mais a impressionou nos candidatos durante esse tempo?
Em cada curso – já foram 64, perto de 2 mil pretendentes –, em cada rosto, vejo esperança, vejo pessoas com um coração amoroso, vejo ansiedade que o filho venha logo. Quando, no curso, levamos pessoas que já adotaram para contar sua história aos pretendentes, existe uma grande emoção em todo grupo. Cada criança que ganha uma família é um grande presente para nossa equipe.
Algumas famílias adotivas temem o retorno da família biológica. A senhora já viu isso?
Se o filho tiver maturidade e quiser conhecer seus pais de origem, é um direito que ele tem. Os pais adotivos não precisam ter medo, pois o vínculo afetivo é maior do que o sangüíneo. Que eu tenha conhecimento, a ocorrência desses casos é mínima. Se a adoção seguiu a via jurídica legal, a família biológica não sabe onde está a criança. Se a adoção for clandestina, a história é outra, correndo o risco de os pais consangüíneos vigiarem o filho.
Como se deve abordar a adoção com a criança?
Com naturalidade e simplicidade, sem derramar informações. A verdade irá crescendo com a criança, com a sua compreensão e elaboração psicológica. Cada um possui necessidades e um tempo de absorção. O ato de contar deve ser afetivo, sem medo e paciente. Sempre se restringir ao que a maturidade da criança apresenta condição de entender.
Crianças que foram adotadas apresentam mais problemas do que as crianças que nasceram criadas pelos pais consangüíneos?
Todas as crianças, independentemente de sua origem, podem ou não apresentar dificuldades, sejam comportamentais ou educacionais. Se olharmos “crianças problema”, encontraremos “pais problema”. Tudo depende de como se educa uma criança: com amor e limites.

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